A Educação No Sanatório

Através dos seus três médicos fundadores, António Emílio de Magalhães, Cândido Henrique Gil da Costa e Veiga Pires, médicos de reconhecido valor na sociedade portuense de então, a Liga Portuguesa de Profilaxia Social inicia o que viria a ser uma longa história de intervenção médico-social, vocacionada para a prevenção das principais doenças que afectaram a saúde pública, em diferentes momentos ao longo do século XX. 

A Liga Portuguesa de Profilaxia Social, desde a sua fundação, investiu fortemente na imagem associada a frases com objectivos pedagógicos e didácticos de doutrinas de profilaxia de intervenção social. Este organismo desenvolveu diferentes intervenções e campanhas, pertinentes e fundamentais, entre as quais merecem destaque: a campanha de combate ao pé descalço (1927-65); a campanha contra o hábito de escarrar e cuspir na via pública (1929) – iniciada nos primórdios da Liga, época em que os inúmeros tuberculosos vagueavam pela cidade, lançando para a via pública abundante expectoração que, além do perigo que representava, demonstrava uma grande falta de civismo – a campanha contra a sífilis (1929) –, mais uma vez provando o seu carácter pioneiro na abordagem dos mais graves problema sociais, a Liga Portuguesa de Profilaxia Social abordava as questões de educação sexual e de prevenção das doenças sexualmente transmissíveis. A Liga desempenhou, ainda, um papel activo na criação do Sanatório D. Manuel II e, através da Assistência aos Tuberculosos do Norte de Portugal, na construção do Sanatório do Mont’Alto, em Valongo. A introdução da BCG2, em 1929, no combate à tuberculose, foi igualmente fruto do esforço desenvolvido pela Liga e dos contactos que manteve a nível internacional. A Liga Portuguesa de Profilaxia Social desempenhou, também, um papel inovador através das conferências doutrinárias que promoveu ao longo de sete séries, desde a sua fundação até 1952. Estas conferências tinham lugar no Salão Nobre dos Fenianos Portuenses e incluíam os mais diversos prelectores, especialistas nos mais variados temas de intervenção social. Costa e Magalhães, fundadores da Liga, caracterizaram-na deste modo: Assim, a Liga Portuguesa de Profilaxia Social se foi tornando uma verdadeira Universidade Livre, onde as vozes mais autorizadas do País inteiro têm vindo expor os resultados dos seus aturados estudos e profunda reflexão quanto aos problemas de que são especialistas, abrangendo num vasto círculo todas as grandes questões médicas, científicas, artísticas, económicas, financeiras e técnicas dos vários ramos que importam ao progresso humano e ao progresso nacional. (Costa & Magalhães, 1951: 36) Nas campanhas antituberculose as famílias e a escola foram alvo de atenção, sempre com intenções educativas, pois era no seio familiar e na escola, sobretudo primária, que se registava a maioria dos contágios e disfunções. Os manuais escolares foram utilizados como um meio eficaz de divulgação de conselhos higiénicos, quer para os alunos quer para os seus familiares. Neles são constantes as referências à adopção de hábitos alimentares saudáveis, de exercício físico, de uma vida ao ar livre e de hábitos de higiene regulares. O ar livre, ricamente oxigenado, batido pelo sol, é associado à longevidade e à qualidade de vida. A luz solar modifica as qualidades do ar tornando o oxigénio mais facilmente assimilável pelo organismo. Surgem teses de apologia do sol como factor fundamental à adopção de uma vida saudável «onde o sol não entra, não tardam a entrar a doença e o médico» (Lima, 1952: 173). 80 2 BCG, iniciais da designação da vacina contra a tuberculose com o Bacilo de Calmette e Guérin. Nestas campanhas, para além de solicitarem a colaboração das famílias, as professoras também eram visadas. Surgiu também nesta altura a figura da enfermeira visitadora, cuja missão consistia no controlo da qualidade dos alimentos, sobretudo do leite de vaca, no repouso e numa alimentação mais equilibrada. A acção do pessoal médico centrou-se na vigilância, na prevenção e educação sobre a tuberculose. Esta doença estava intimamente ligada à pobreza e a um estilo de vida pouco higiénico. Neste domínio, a mulher, como mãe e como esposa desempenhou um papel central. Coube-lhe a responsabilidade de higienizar e moralizar a família. Foram desenvolvidas práticas de acção social capazes de modificar, a longo prazo, certos hábitos e práticas anti-higiénicas e anti-sociais. A luta contra a tuberculose passou a ser uma obrigação social do Estado. ler artigo completo aqui

fonte:https://www.fpce.up.pt/ciie/revistaesc/ESC30/n30a07.pdf